Dados de mortes e internações em UTIs indicam platô da pandemia no RS

Os dados de mortes e internações de pacientes graves com covid-19 das últimas semanas indicam que o Rio Grande do Sul atingiu um platô da pandemia — uma estabilização dos principais indicadores de impacto da doença em nível alto. 

O freio no ritmo de novas mortes e hospitalizações em unidades de terapia intensiva (UTIs) é uma boa notícia, mas aumentos no registro de novos casos ao longo de agosto e, nos últimos dias, em internações em leitos clínicos mantêm a necessidade de alerta.  

Esse cenário coincide com o “alaranjamento” do mapa de distanciamento controlado divulgado pelo Piratini na segunda-feira (31). Pela primeira vez em 10 semanas, apenas quatro regiões foram confirmadas na cor vermelha, indicativa de alto risco frente ao coronavírus. As 17 áreas restantes ficaram na coloração laranja, de risco médio. 

Os dados indicam, de fato, para uma estabilização da pandemia no Estado, com pequenas variações diárias. Mas é uma estabilidade alta, que segue tirando muitas vidas que seria possível preservar, já que é uma doença que pode ser evitada — analisa o professor de Infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Alexandre Zavascki. 

O número absoluto de mortes por semana epidemiológica (medida de tempo padronizada para monitoramento de doenças, que se estende sempre de domingo a sábado) sugere queda desde a virada de julho para agosto — quando chegou a valor máximo de 405 vidas perdidas no período de sete dias. Depois disso, recuou para 364, 352 e 337 (veja gráfico) com base na data do óbito.

A última semana epidemiológica, encerrada no dia 29 de agosto, registrou 255 mortes, mas essa cifra ainda pode subir pela inclusão de registros tardios. Quando se analisa a média móvel de mortes diárias, calculada sempre para os sete dias anteriores, a estatística também indica tendência de estabilização com leve queda ao longo de agosto: variou de um patamar próximo a 60 óbitos diários no começo do mês para cerca de 50 nas últimas duas semanas. 

— Estamos em um platô alto. E é uma estabilização heterogênea: vemos algumas regiões com uma queda, outras estabilizaram, e ainda outras aumentaram internações em leitos clínicos, por exemplo, como a dos Vales — analisa  Leany Lemos, que coordena o Comitê de Dados do governo do Estado e participa do gabinete de crise.

As internações em UTI bateram em 740 na metade de agosto e, desde então até a tarde desta terça-feira (1º), não voltaram a repetir esse patamar. Nos últimos dias, têm oscilado pouco acima dos 700 casos. 

Leany afirma que ainda estão sendo monitorados possíveis impactos do sistema de cogestão implantado há pouco mais de duas semanas no Estado sobre o avanço do coronavírus em solo gaúcho. Esse novo modelo permite aos prefeitos participar das decisões referentes ao combate à covid-19 ao lado da administração estadual e ampliar a flexibilização de atividades.

Novos casos e internações em leitos clínicos mantêm alerta

Apesar de indícios favoráveis envolvendo mortes e internação de pacientes graves com covid-19 no Estado, especialistas sugerem manter o estado de alerta contra um possível novo agravamento da pandemia. 

O registro diário de novos casos, por exemplo, segue apresentando tendência de aumento. Conforme dados do Ministério da Saúde, a média diária de registros (com base nos sete dias anteriores) era de 1,6 mil no começo de agosto e terminou o mês oscilando acima de 2 mil novos registros ao dia. 

Uma das possibilidades é de que municípios e Estado estejam testando mais. O infectologista Alexandre Zavascki cogita outras opções para explicar essa aparente contradição: 

— Novas infecções podem estar atingindo pessoas com menor risco (de agravamento e necessidade de hospitalização). O uso de máscara também pode estar gerando infecções mais leves ao reduzir a carga viral de eventuais contágios. Também não se pode descartar alguma adaptação do vírus. 

O número de pacientes em leitos clínicos (que recebem casos intermediários) é um indicador de um possível agravamento da pandemia nas semanas seguintes — já que uma parcela desses pacientes pode parar em UTIs. Nesse caso, o cenário também dá sinais de estabilização ao longo de agosto, mas com leve crescimento nos últimos dias. 

O número de pacientes internados fora de UTIs era superior a 900 na metade do mês passado, caiu para menos de 800, mas voltou a superar esse patamar desde o final de semana. Segundo o epidemiologista e consultor do Hospital de Clínicas Jair Ferreira, esse nível de hospitalizações não permite acreditar que está tudo bem. 

— Estamos vendo um sobe e desce constante na ocupação dos leitos clínicos, mas sempre em nível alto. A situação ainda é preocupante — avalia Ferreira. 

Nesta terça, as UTIs de Porto Alegre atingiram o maior número de pacientes com diagnóstico confirmado de covid desde o início da pandemia, com 344 hospitalizações até as 17h. Os próximos dias poderão indicar se houve uma variação pontual ou o início de uma nova tendência. 

Fonte Gaúcha ZH