O que muda com o primeiro caso de transmissão local de coronavírus em Porto Alegre

Uma semana depois de registrar o primeiro caso de coronavírusPorto Alegre confirmou, nesta quarta-feira (18), a primeira paciente com transmissão local de covid-19, quando alguém contaminado no Exterior passa o vírus adiante. Anteriormente, o município tinha apenas casos importados — de pessoas que viajaram para fora do país. Até as 17h desta quarta-feira, a Capital contabilizava 16 pacientes.

Segundo especialistas, a transmissão local era esperada, e inaugura uma nova fase no combate à doença. Sua provável consequência é a chamada transmissão comunitária, quando se torna impossível identificar a origem da contaminação. As medidas a serem adotadas agora vão ao encontro daquelas recentemente determinadas por oito decretos da prefeitura que suspenderam serviços públicos e atividades comerciais para barrar o contágio de coronavírus.

— As recomendações continuam as mesmas: isolamento e distanciamento social, principalmente dos grupos de risco, e higienização frequentes das mãos. A transmissão comunitária é só uma questão de tempo, mas a velocidade depende das nossas atitudes de hoje — explicou o infectologista do Serviço de Controle de Infecção da Santa Casa de Misericórdia e professor da Ulbra, Claudio Stadnik.

Para o infectologista da Santa Casa, o mais importante nessa fase é não menosprezar o potencial de contaminação do coronavírus, mais alto do que o da gripe comum, e priorizar o isolamento sempre que possível. O objetivo é controlar a transmissão comunitária iminente, evitando a superlotação de hospitais, a falta de leitos e, em casos extremos, como o que ocorre na Itália, a restrição de atendimentos.

Professor de Epidemiologia da UFRGS e gerente de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Ricardo Kuchenbecker também acredita que evitar o contato social será determinante para conter a evolução da pandemia na Capital. A medida é importante, segundo ele, porque o balanço atual inclui apenas casos de pessoas que manifestaram sintomas da doença. Ou seja, há um número desconhecido de pessoas contaminadas que não apresentaram sintomas, mas podem transmitir o vírus.

— Se a alguém ainda parecia drásticas as medidas, essa é a prova de que esse processo precisa acontecer. A gente tende a imaginar que a restrição (de contato) ontem e hoje é suficiente, mas não. As pessoas precisam estar preparadas para passar pelo menos oito semanas isoladas — destacou Kuchenbecker.

Caso siga o exemplo da Itália, onde as medidas de distanciamento social demoraram a ser adotadas, o Rio Grande do Sul pode chegar a ter mais de 4 mil infectados nos próximos 14 dias. O crescimento acelerado sobrecarregaria o sistema de saúde, e implicaria em medidas de isolamento ainda mais drásticas, incluindo limitações de circulação, inclusive, dentro da cidade.

Após a confirmação da transmissão local, o prefeito da Capital, Nelson Marchezan, disse que as restrições irão aumentar “a cada hora, a cada dia, a cada semana”. Nesta semana, a prefeitura publicou oito decretos suspendendo aulas, serviços públicos e atividades comerciais para tentar conter a disseminação do coronavírus.

A Câmara Municipal irá interromper a suspensão das votações — que seguirá até o dia 31 de março — para votar um projeto encaminhado pela prefeitura, autorizando a contratação de cem profissionais para a área da saúde. A apreciação do texto está prevista para sexta-feira (20), de forma virtual.

Fonte Gaúcha ZH