Prefeitos adotam distribuição massiva de remédios para prevenir covid-19; kits não têm eficácia comprovada

Nova onda entre prefeitos, a distribuição de kits de medicamentos preventivos à covid-19 para pacientes suspeitos de terem contraído o coronavírus — ou em fase inicial de contágio, com sintomas leves — já se espalha com força nos municípios gaúchos. 

Milhares de comprimidos de diferentes drogas estão sendo adquiridos pelos gestores de GravataíCachoeirinha, Parobé e Campo Bom, por exemplo, que detalharam o modelo de distribuição a GaúchaZH. Uma noção da amplitude de municípios que desejam ter a oferta profilática pode ser observada pelas 159 cidades gaúchas que aderiram a um protocolo da Secretaria Estadual da Saúde para receber cloroquina do Ministério da Saúde, tendo a pasta estadual como intermediadora. As cargas do governo federal ainda não chegaram, mas o mecanismo de disseminação já está preparado.

Os prefeitos argumentam que testes de laboratório e doses já aplicadas em pacientes mostraram potencial de eficácia. O objetivo, dizem, é evitar o colapso do sistema de saúde, já que os coquetéis de remédios teriam potencial, utilizados juntos ou separadamente, para prevenir o avanço da doença ao estágio que demandaria internação em leito clínico ou de UTI. O contrapeso a essa ideia que se multiplica entre os prefeitos é o fato de que nenhum dos medicamentos incluídos nos kits tem eficácia comprovada cientificamente contra a covid-19. E, pior, podem causar efeitos colaterais, desde alguns amenos, como vômito, até outros mais perigosos, como arritmia cardíaca, no caso da cloroquina.

Em todos os municípios consultados pela reportagem, os kits covid-19 serão distribuídos nas farmácias municipais, hospitais e postos de saúde somente sob prescrição médica. Foi unânime a afirmativa de que a disseminação de remédios sem critérios e a automedicação não seriam admitidas. Os pacientes, em geral, terão de assinar termos de consentimento.

Em Gravataí, a prefeitura iniciou o processo de compra e disponibilização da ivermectina e da cloroquina, acrescidos de outras três opções de fármacos. O início da distribuição está previsto para a semana que vem. O secretário municipal da Saúde, Jean Tormann, acredita que serão pelo menos 100 mil unidades de comprimidos.

— Uma parcela dos nossos profissionais médicos disse que não confiava (na medicação preventiva). Outra parcela disse que sim, apontando resultados significativos no tratamento precoce. Para o médico que quiser recomendar, a gente resolveu prover a disponibilidade. Para a corrente que acredita, a ideia é permitir que o paciente possa se recuperar no ambiente domiciliar — diz Tormann.

O remédio mais recorrente entre as prefeituras consultadas é a ivermectina, um vermífugo que, na bula, é indicado para sarna, lombriga e piolho, entre outras. 

O uso dessa droga também está previsto em Cachoeirinha, Campo Bom e Parobé. Para o prefeito Luciano Orsi, de Campo Bom, ela poderá ser prescrita antes mesmo do surgimento de sintomas de covid-19.

— Parentes próximos de infectados podem usar como profilaxia, tentando fazer uma espécie de bloqueio — avalia Orsi, que admite a existência de “divergência muito grande de opiniões” sobre a eficácia e conveniência de medicar a população massivamente com as substâncias.

Em Parobé, os kits já começaram a ser distribuídos na terça-feira (7), diz o prefeito Diego Dal Piva da Luz. As opções são tamiflu, paracetamol, azitromicina e ivermectina.

— Os médicos me passaram que a azitromicina teria o maior combate ao covid-19. Se o médico entender que o paciente precisa de isolamento domiciliar, ele já vai para casa com esse tratamento — afirma Luz, que assegura ter travado debates com médicos sobre efeitos colaterais possíveis, os quais foram descritos a ele como “não graves”.

Orsi, de Campo Bom, ressaltou preocupação com a hipótese de a população se sentir protegida com remédios e abandonar medidas de distanciamento social, as quais ele classificou como “a maior prevenção”.

Gestores municipais ainda comentaram a suposta influência psicológica do presidente Jair

Professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, Alexandre Zavascki foi mais cético na avaliação dos programas profiláticos. Ele aponta a ausência de comprovação de eficácia, alerta sobre os danos colaterais e a “falsa sensação de proteção” que poderá levar pessoas a descuidarem de medidas de distanciamento. 

— Infelizmente, é uma ideia fantasiosa que se espalhou, impulsionada por grupos de médicos. É uma atitude irracional no sentido de buscar uma tentativa milagrosa — avalia Zavascki. 

A ivermectina, diz, pode causar alterações no fígado e reações alérgicas graves. Ele ainda ressaltou que as doses de ivermectina que um humano precisa tomar em busca de eficácia são bastante superiores às usadas em experimentos de laboratório.

— Outro ponto desconhecido é a interação entre essas drogas (do kit). Isoladamente elas têm seu perfil conhecido, mas, se adotadas em conjunto, não se sabe como elas podem se comportar — alerta. 

 na adoção de remédios preventivos para o coronavírus, considerando que ele é um dos principais defensores do uso da cloroquina. 

— Não sei se Bolsonaro estimula as prefeituras, mas, com toda a certeza, acaba induzindo a sociedade a pressionar pelo acesso a esses medicamentos — avalia Tormann, de Gravataí.

Um dos interlocutores de prefeitos na idealização dos kits covid-19 é o senador Luis Carlos Heinze (PP). Nesta semana, ele participou de duas reuniões virtuais com gestores de diferentes regiões e médicos que incentivam o tratamento profilático. 

— Na primeira reunião (terça, dia 7), tinha mais de cem prefeitos presentes. Pegou Vale do Taquari, Vale do Caí, Vale do Rio Pardo. Fui procurado por duas médicas do Recife e um do Rio de Janeiro para que eu ajudasse a andar com o processo da ivermectina no Ministério (da Saúde) — diz Heinze. 

Ele salienta que se coloca à disposição, mas afirma que a articulação e a iniciativa é dos próprios prefeitos.  

— Por que isso está mais forte no Vale do Taquari? Por causa dos frigoríficos que estão fechando (por surtos de coronavírus). Os prefeitos estão buscando saídas para proteger seus munícipes e indústrias — avalia o senador.

Distribuição massiva em Itajaí

A catarinense Itajaí, vizinha de Balneário Camboriú, adotou um programa de distribuição agressivo da ivermectina. Até agora, é a única droga incluída na proposta local de tratamento preventivo. Nesta quinta-feira (9), até as 19h, o município havia distribuído o fármaco para 17.589 mil habitantes. Para a próxima semana, diz o prefeito Volnei Morastoni, o objetivo é alcançar 150 mil pessoas medicadas. Isso representa mais da metade da população de Itajaí, que soma 220 mil habitantes.

— Ninguém é obrigado a tomar, mas estamos estimulando — diz Morastoni, estimando a distribuição de três milhões de comprimidos. 

Uma estrutura de atendimento e distribuição foi montada no centro de eventos da cidade. Todos os cidadãos que se apresentarem serão contemplados com doses do remédio, salvo casos excepcionais de contraindicação detectados pelos médicos que passam orientações no local. 

Ninguém é obrigado a tomar, mas estamos estimulando

VOLNEI MORASTONI

Prefeito de Itajaí

O prefeito destaca estudos laboratoriais que mostraram a redução da multiplicação viral diante da aplicação da ivermectina. Também defende que o remédio pode gerar uma certa imunidade para os não infectados, “embora ainda não se saiba exatamente como isso ocorre”.

— A ivermectina tem baixo custo e muito pouco efeito colateral. Se você tomar cloroquina, pode ter arritmia cardíaca, tem de fazer eletrocardiograma antes e durante. A ivermectina não tem nada disso e há evidência de que ela pode ajudar. Lógico que é um cabo de guerra, tem muito interesse comercial por trás. Me norteio pelo foco no paciente — diz Morastoni, que é médico e defende a manutenção das medidas de distanciamento social.

Especialistas alertam para riscos

Vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio Grande do Sul (CRF/RS), Tarso Bortolini destaca que “não há terapia antiviral específica no momento” para a covid-19.

“Observamos, porém, um aumento na defesa do uso desses medicamentos por parte dos médicos devido aos resultados clínicos que estão sendo observados por eles. O CRF/RS alerta que decisões relacionadas à assistência farmacêutica, em todos os níveis de atenção, devem ser tomadas por equipe técnica multiprofissional, legalmente estabelecida”, diz a entidade. 

Sobre a ivermectina, adotada em maior escala pelos prefeitos consultados, o conselho afirma que “não há evidências científicas conclusivas a respeito da utilização contra a covid-19 em seres humanos. O uso está sendo embasado na clínica médica, onde os médicos têm relatado bons resultados”.

Professor de Infectologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, Alexandre Zavascki foi mais cético na avaliação dos programas profiláticos. Ele aponta a ausência de comprovação de eficácia, alerta sobre os danos colaterais e a “falsa sensação de proteção” que poderá levar pessoas a descuidarem de medidas de distanciamento. 

— Infelizmente, é uma ideia fantasiosa que se espalhou, impulsionada por grupos de médicos. É uma atitude irracional no sentido de buscar uma tentativa milagrosa — avalia Zavascki. 

A ivermectina, diz, pode causar alterações no fígado e reações alérgicas graves. Ele ainda ressaltou que as doses de ivermectina que um humano precisa tomar em busca de eficácia são bastante superiores às usadas em experimentos de laboratório.

— Outro ponto desconhecido é a interação entre essas drogas (do kit). Isoladamente elas têm seu perfil conhecido, mas, se adotadas em conjunto, não se sabe como elas podem se comportar — alerta. 

Informação Gaúcha ZH